Por – Dra. Simone Neri
Durante muito tempo, as feridas crônicas foram vistas apenas como um problema local — algo restrito à pele. Mas a ciência tem nos mostrado um cenário muito mais profundo e, por vezes, silencioso.
Um estudo publicado no Journal of Vascular Surgery trouxe uma reflexão importante para a prática clínica: pacientes com úlceras venosas de membros inferiores apresentam um risco aproximadamente duas vezes maior de mortalidade por todas as causas quando comparados àqueles com insuficiência venosa crônica sem úlceras.
Esse dado muda a forma como devemos enxergar essas lesões.
A úlcera venosa, especialmente nos estágios mais avançados da classificação CEAP (como o estágio C6), deixa de ser apenas uma ferida difícil de cicatrizar. Ela passa a ser um verdadeiro marcador de fragilidade sistêmica. Em outras palavras: a pele está contando uma história que vai muito além dela.
Na prática dermatológica, isso exige um novo olhar.
Quando me deparo com um paciente portador de úlcera venosa crônica, não estou apenas diante de um desafio de cicatrização. Estou diante de um organismo que, muitas vezes, já carrega um histórico de inflamação persistente, alterações vasculares importantes e, frequentemente, múltiplas comorbidades. Idade avançada, uso de anticoagulantes e maior prevalência no sexo masculino são alguns dos fatores associados a esse pior prognóstico.
A pele, nesse contexto, funciona como um espelho da saúde vascular — e, em certa medida, da saúde cardiovascular.
Por isso, limitar o tratamento ao curativo da ferida é insuficiente.
O cuidado precisa ser ampliado. É fundamental integrar diferentes especialidades, incluindo a clínica médica, a cardiologia e a cirurgia vascular, para uma abordagem que contemple não apenas a cicatrização, mas também o controle rigoroso das doenças de base.
Essa visão multidisciplinar não é um detalhe — é uma necessidade.
Mais do que fechar uma ferida, precisamos cuidar do paciente como um todo. Precisamos entender que aquela lesão na perna pode ser um sinal de alerta para riscos maiores, muitas vezes invisíveis.
A dermatologia, nesse cenário, assume um papel estratégico: o de identificar precocemente esses sinais e conduzir o paciente para uma abordagem mais ampla, preventiva e integrada.
Porque, no fim, quando a pele fala, o coração pode estar pedindo socorro.
