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Do RADLA, em Buenos Aires, uma reflexão: somos mais do que nossa genética

Por – Dra Simone Neri

Estou escrevendo esta coluna diretamente de Buenos Aires, onde participo do Congresso Latino-Americano de Dermatologia (RADLA), um dos encontros científicos mais importantes da nossa especialidade. Em meio a tantas aulas sobre tecnologias, tratamentos e inovação, um tema chamou profundamente minha atenção — talvez por representar uma mudança na forma como entendemos saúde, envelhecimento e doença: o conceito de expossoma.

Durante muitos anos, acreditamos que a genética fosse a principal responsável por determinar quem desenvolveria determinadas doenças. Hoje sabemos que isso é apenas parte da história.

O expossoma surge justamente para ampliar esse olhar. O conceito, descrito inicialmente em 2005 pelo pesquisador Christopher Wild, propõe que nossa saúde seja compreendida pela totalidade das exposições que vivemos ao longo da vida, desde a concepção até o envelhecimento: alimentação, poluição, qualidade do sono, estresse, relações sociais, ambiente de trabalho, renda, atividade física, infecções, hábitos e até o local onde moramos. Tudo isso interage continuamente com nosso organismo.

Em outras palavras: não somos definidos apenas pelos genes que herdamos, mas também pela forma como o mundo nos atravessa todos os dias.

Esse conceito conversa profundamente com algo que observo há anos no consultório e no SUS. Pacientes com doenças inflamatórias da pele, envelhecimento precoce, alopecias, acne persistente ou até dificuldade na cicatrização frequentemente apresentam fatores além do diagnóstico dermatológico: jornadas exaustivas, ansiedade, privação de sono, alimentação inadequada, exposição solar excessiva, poluição ou vulnerabilidades sociais.

A pele, afinal, é um espelho do organismo.

Os estudos sobre expossoma mostram ainda que exposições ambientais atuam em conjunto — e não isoladamente — influenciando processos inflamatórios, estresse oxidativo e mecanismos ligados ao surgimento de doenças crônicas. Isso representa uma mudança de paradigma: deixar de pensar em uma única causa para compreender a saúde como resultado de múltiplos fatores interconectados.

Talvez o aspecto mais inspirador desse tema seja justamente a esperança que ele traz: se parte da nossa saúde depende das exposições acumuladas ao longo da vida, então algumas delas podem ser modificadas.

Dormir melhor. Reduzir estresse. Cuidar da alimentação. Proteger-se do sol. Construir relações saudáveis. Melhorar ambientes de trabalho. Incentivar atividade física. Pensar saúde de forma integrada.

Isso não substitui a medicina — amplia a medicina.

Saio deste congresso com a sensação de que o futuro do cuidado estará cada vez mais conectado a uma visão global do indivíduo, onde dermatologia, saúde mental, ambiente, genética e estilo de vida caminham juntos.

E confesso: voltei encantada por esse novo olhar.

Em breve, pretendo trazer mais desse conhecimento para meus pacientes, para o atendimento público e privado e para os projetos que desenvolvemos em saúde coletiva. Porque compreender o que está sob a pele talvez seja, antes de tudo, compreender tudo aquilo que vivemos.

Dra. Simone Neri
Médica • Membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia
Presidente do Instituto Casa Neri
Coluna Sob a PeleJornal A Rua

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