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A vacina contra o melanoma e a esperança que deve caminhar ao lado da ciência

Nos últimos dias, acompanhei com grande interesse a notícia sobre os resultados de uma vacina personalizada contra o melanoma. Como dermatologista e médica que tem aprofundado seus estudos em oncologia cutânea, confesso que recebi essa novidade com entusiasmo. Afinal, quem acompanha pacientes com câncer de pele sabe o quanto cada avanço pode representar uma nova possibilidade de vida.
Mas também aprendi, ao longo da minha trajetória, que a esperança precisa caminhar ao lado da ciência. E é justamente por isso que precisamos compreender o que realmente foi anunciado, sem antecipar conclusões ou transformar uma descoberta promissora em uma falsa promessa de cura.
Apesar de estar sendo chamada de “vacina contra o câncer de pele”, não se trata de uma vacina preventiva, como aquelas que recebemos para evitar doenças infecciosas. O tratamento, chamado intismeran autogene — anteriormente conhecido como mRNA-4157 ou V940 — está sendo estudado para pacientes que já tiveram um melanoma de alto risco retirado cirurgicamente.
O melanoma é menos frequente que os carcinomas basocelular e espinocelular, mas é o tumor cutâneo que mais nos preocupa pela sua capacidade de produzir metástases. Quando diagnosticado precocemente, apresenta grandes possibilidades de cura com a cirurgia. Entretanto, nos estágios mais avançados, mesmo após a retirada completa da lesão, podem permanecer células tumorais microscópicas no organismo, responsáveis pela recorrência da doença.
É justamente nesse ponto que a nova terapia procura atuar.
Cada melanoma possui um conjunto particular de alterações genéticas, quase como uma impressão digital. A partir de uma amostra do tumor retirado, os pesquisadores identificam mutações capazes de produzir proteínas anormais, chamadas neoantígenos. Com essas informações, é desenvolvida uma sequência personalizada de RNA mensageiro para ensinar o sistema imunológico a reconhecer e combater as células daquele tumor específico.
Gosto de explicar essa tecnologia de uma maneira simples: é como oferecer ao sistema de defesa um retrato falado do tumor que ele precisa procurar.
O intismeran é utilizado em associação ao pembrolizumabe, uma imunoterapia já empregada no tratamento do melanoma. Enquanto o pembrolizumabe ajuda a retirar os “freios” que impedem uma resposta imunológica mais eficiente, a vacina procura mostrar ao organismo quais células devem ser reconhecidas como alvo.
Os primeiros resultados importantes vieram do estudo KEYNOTE-942, publicado em 2024 na revista científica The Lancet. O estudo reuniu 157 pacientes com melanoma de alto risco completamente retirado. Após 18 meses, 79% daqueles que receberam a vacina personalizada associada ao pembrolizumabe permaneciam sem recorrência, comparados a 62% dos pacientes tratados apenas com pembrolizumabe.
O acompanhamento de cinco anos também manteve uma redução importante no risco relativo de recorrência ou morte e no risco de metástase à distância, sem novos sinais relevantes de segurança.

Mais recentemente, as empresas responsáveis pelo desenvolvimento da terapia anunciaram resultados positivos do estudo de fase III INTerpath-001, realizado com um número muito maior de pacientes. Segundo o comunicado, a combinação aumentou o tempo sem recorrência e sem aparecimento de metástases à distância quando comparada ao pembrolizumabe isolado.
É uma notícia realmente importante. Se os resultados completos confirmarem o anúncio, estaremos diante do primeiro estudo de fase III a demonstrar benefício clínico de uma terapia personalizada de neoantígenos baseada em RNA mensageiro.
Mas existe um ponto que faço questão de destacar: até o momento, temos um comunicado dos fabricantes, e não a publicação científica completa do estudo. Ainda precisamos conhecer os percentuais detalhados, a magnitude real do benefício, os dados de segurança e, principalmente, o impacto sobre a sobrevida global.
Também é importante compreender que redução relativa de risco não significa que metade dos pacientes foi curada. Significa que, durante determinado período de acompanhamento, um grupo apresentou menos eventos quando comparado ao outro. É um resultado relevante, mas que precisa ser interpretado dentro do seu contexto científico.
O tratamento ainda é experimental, não está disponível para uso rotineiro e deverá passar pela avaliação das agências reguladoras. Mesmo que seja aprovado, questões como custo, tempo de produção, sequenciamento genético do tumor e acesso à tecnologia precisarão ser discutidas.
E há outro cuidado fundamental: essa terapia não previne o câncer de pele e não substitui o diagnóstico precoce. Ela está sendo estudada especificamente para pessoas que já tiveram melanoma de alto risco retirado cirurgicamente. Também não se destina, neste momento, aos carcinomas basocelular e espinocelular, responsáveis pela maioria dos tumores cutâneos.
Por isso, diante de tantas manchetes sobre uma possível “vacina contra o câncer de pele”, reforço aquilo que digo diariamente aos meus pacientes: observem suas pintas, prestem atenção às lesões que crescem, mudam de cor, sangram ou não cicatrizam e realizem avaliações dermatológicas periódicas. A dermatoscopia e o exame clínico continuam sendo ferramentas fundamentais para identificar precocemente lesões suspeitas.
Eu acredito que estamos diante de uma nova fronteira da oncologia. Ver uma terapia construída a partir da identidade genética de cada tumor avançar para um grande estudo de fase III representa uma mudança extraordinária na forma como poderemos tratar o câncer no futuro.
Como médica, celebro esse avanço. Como cientista, aguardo os dados completos. E, como alguém que acompanha de perto pacientes e famílias atravessados pelo diagnóstico de melanoma, desejo profundamente que essa esperança se confirme.
A ciência não precisa de exageros para ser extraordinária. Quando sustentada por evidências, ela já é capaz de transformar vidas.

Dra. Simone Neri
CRM-SP 80.919
Médica • Gestora em Saúde pela FGV • Médica Matriciadora de Dermatologia da Secretaria Municipal de Saúde de Osasco • Membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia

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