Toxina botulínica no couro cabeludo: quando a pesquisa científica encontra a prática clínica
Por – Dra. Simone Neri
Quando se fala em toxina botulínica, a primeira associação costuma ser com o tratamento das rugas. Mas essa substância, tão conhecida na Dermatologia estética, possui mecanismos de ação que despertam interesse em outras áreas da Medicina — e uma delas é a Tricologia, campo da Dermatologia dedicado às doenças dos cabelos e do couro cabeludo.
Esse é um tema particularmente especial para mim. Estudo as doenças dos cabelos há muitos anos e, ao longo da minha trajetória, passei a investigar uma pergunta que ainda hoje movimenta a pesquisa científica: a toxina botulínica poderia contribuir para o tratamento de determinadas doenças do couro cabeludo?
A resposta não cabe em promessas ou fórmulas prontas. Ela precisa ser construída com pesquisa.
Meu envolvimento com o tema levou à participação em projetos científicos e resultou em três trabalhos publicados sobre o uso da toxina botulínica em doenças do couro cabeludo, incluindo foliculite decalvante, foliculite dissecante e alopecia frontal fibrosante. Parte dessa trajetória foi construída em colaboração com pesquisadores ligados ao Instituto Butantan e a outras instituições.
Em 2023, tive ainda a honra de ser convidada para ministrar uma aula na Pós-Graduação em Toxinologia do Instituto Butantan, abordando justamente a utilização da toxina botulínica nas doenças do couro cabeludo. Ensinar sobre um assunto que também foi objeto de minhas pesquisas foi um daqueles momentos em que assistência, ciência e formação profissional se encontram.

Mas como a toxina poderia atuar nos cabelos?
Sua ação é muito mais complexa do que simplesmente relaxar músculos.
A literatura científica vem investigando possíveis efeitos sobre a microcirculação e a oxigenação do ambiente folicular, além da modulação de vias neuroquímicas e de mediadores envolvidos em processos inflamatórios. Substâncias relacionadas à chamada inflamação neurogênica, como a substância P e o CGRP, estão entre os mecanismos de interesse científico.
Na alopecia androgenética, por exemplo, estudos investigam a hipótese de que alterações na tensão do couro cabeludo e na microcirculação possam contribuir para um ambiente mais favorável ao folículo. Os resultados são interessantes, mas as evidências ainda são limitadas e a toxina botulínica deve ser entendida como uma possibilidade complementar para pacientes selecionados, e não como substituta dos tratamentos já estabelecidos.
Outra possibilidade é sua aplicação por técnicas de microinfusão, como a MMP — Microinfusão de Medicamentos na Pele. Por meio de microagulhas, substâncias selecionadas pelo médico são administradas diretamente na região que se pretende tratar.
Em um de nossos trabalhos científicos, estudamos justamente a aplicação da toxina botulínica A pela técnica de MMP em alopecia frontal fibrosante, uma alopecia cicatricial de caráter inflamatório. O caso apresentou melhora clínica, abrindo uma interessante linha de investigação. Entretanto, um relato de caso não é suficiente para transformar uma hipótese promissora em verdade definitiva. São necessários estudos maiores e controlados.
E talvez essa seja a mensagem mais importante desta coluna.
Não existe milagre para queda de cabelo. Existe ciência.
A mesma queixa — “meu cabelo está caindo” — pode esconder condições completamente diferentes: alopecia androgenética, eflúvio telógeno, doenças autoimunes, processos inflamatórios, alopecias cicatriciais, alterações nutricionais, hormonais ou outras causas.
Por isso, não acredito em uma “mescla” universal nem em um procedimento capaz de tratar todos os pacientes da mesma maneira.
Primeiro vem o diagnóstico. Depois, a indicação terapêutica.
Minha trajetória como dermatologista e estudiosa da Tricologia ensinou-me exatamente isso: quanto mais pesquisamos, menos espaço existe para soluções milagrosas e maior é a responsabilidade de individualizar o tratamento.
Ter trabalhos científicos publicados nessa área não significa ter encontrado uma fórmula definitiva. Significa justamente o contrário: continuar fazendo perguntas, confrontando hipóteses com evidências e transformando conhecimento científico em decisões cada vez mais responsáveis para nossos pacientes.
Porque, quando o assunto é saúde dos cabelos e do couro cabeludo, o melhor tratamento não é necessariamente o mais novo ou o mais divulgado.
É aquele que tem indicação para o paciente que está diante de nós.
Dra. Simone Neri
Médica – CRM-SP 80.919
Membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia
Coluna Sob a Pele – A Rua
